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Endocrinologia

Riscos endócrinos e metabólicos do uso de anabolizantes e SARMs

Dr. Gilberto Nering Jr. — CRM/SP 160822 · Médico do Esporte RQE 142486

O sistema endócrino regula praticamente todas as funções do organismo: metabolismo, reprodução, crescimento, humor, resposta ao estresse e composição corporal. O uso de esteroides anabolizantes, SARMs e peptídeos hormonais interfere diretamente nesse sistema, com consequências que vão do hipogonadismo permanente à lesão hepática grave.

Supressão do eixo hormonal

O eixo hipotálamo-hipófise-gônadas funciona por feedback: quando o organismo detecta andrógenos circulantes, reduz ou suspende a produção própria de testosterona. Com o uso de esteroides exógenos, o hipotálamo para de pulsar o hormônio GnRH, a hipófise para de liberar LH e FSH, e os testículos param de produzir testosterona e espermatozoides.

Em ciclos curtos, o eixo pode se recuperar em 3 a 6 meses após a cessação. Com uso prolongado, especialmente com compostos como nandrolona e trembolona, os neurônios hipotalâmicos produtores de GnRH e as células de Leydig nos testículos podem sofrer perda celular irreversível.

Consequências documentadas:

  • Hipogonadismo pós-ciclo: presente em graus variados na maioria dos usuários após a cessação. Cursa com fadiga, depressão, perda de libido, disfunção erétil e perda de massa muscular.
  • Hipogonadismo permanente: ocorre em uma parcela significativa dos usuários de longo prazo. A literatura aponta prevalência de até 85% de algum grau de hipogonadismo após cessação prolongada. Parte desses casos não tem recuperação espontânea e exige reposição hormonal pelo resto da vida.
  • Infertilidade: a azoospermia ocorre durante o uso e pode persistir por 12 a 16 meses após a cessação. Em casos graves, pode ser permanente.
  • Atrofia testicular: presente em até 90% dos usuários de longa data. O volume testicular pode não retornar ao basal.

Dislipidemia e risco metabólico

Os anabolizantes alteram o perfil lipídico de forma aterogênica. O stanozolol oral pode reduzir o HDL em até 80% em poucas semanas. A testosterona injetável reduz entre 20 e 30%. O LDL sobe e a peroxidação lipídica aumenta, acelerando o processo aterosclerótico.

Simultaneamente, os anabolizantes ativam o sistema renina-angiotensina-aldosterona, contribuindo para hipertensão arterial, e promovem resistência à insulina com risco de progressão para diabetes tipo 2 em uso prolongado.

Hepatotoxicidade

Os anabolizantes orais com modificação 17-alfa (stanozolol, oxandrolona, metandrostenolona) são metabolizados no fígado de forma que inibe a excreção biliar normal e causa necrose hepatocelular dose-dependente. Elevação de enzimas hepáticas ocorre em praticamente todos os usuários. Com uso prolongado, pode evoluir para:

  • Colestase intra-hepática
  • Peliose hepática (formação de cavernas vasculares no parênquima com risco de ruptura e hemorragia)
  • Adenoma hepático e carcinoma hepatocelular (associados a uso acima de cinco anos)

Riscos específicos dos SARMs

Os SARMs são comercializados como alternativa segura por supostamente não afetar o fígado nem o eixo hormonal. Os dados clínicos contradizem essa afirmação.

  • Supressão hormonal: todos os SARMs avaliados em estudos clínicos controlados suprimiram LH, FSH, testosterona e SHBG. A magnitude é menor do que com os esteroides clássicos, mas a supressão existe de forma reproduzível.
  • Redução de HDL: observada em todos os SARMs estudados, com queda média de 6,9 mg/dL nos estudos controlados.
  • Hepatotoxicidade: uma revisão de 2024 documentou 20 casos de lesão hepática grave por SARMs. LGD-4033 e RAD140 foram os mais envolvidos. Cerca de 60% dos casos exigiram internação hospitalar. Dois casos evoluíram para insuficiência hepática aguda. Um óbito foi registrado.
  • Mercado cinza: análises laboratoriais de produtos vendidos livremente mostraram que apenas 52% continham o SARM declarado no rótulo. Quase 40% continham esteroides não declarados, frequentemente stanozolol oral.

Efeitos em mulheres

Em mulheres, os anabolizantes causam efeitos androgênicos que incluem alterações reversíveis (acne, hirsutismo, irregularidade menstrual) e alterações irreversíveis (clitoromegalia, hipertrofia de lábios menores, engrossamento da voz, calvície androgênica). O limiar para virilização irreversível varia entre indivíduos e não é previsível, o que significa que não existe dose que garanta ausência de efeitos permanentes.

Conclusão

O uso de anabolizantes, SARMs e peptídeos hormonais sem indicação clínica comprovada impõe um custo endócrino e metabólico documentado que inclui supressão hormonal potencialmente permanente, infertilidade, dislipidemia aterogênica e lesão hepática grave. A avaliação endocrinológica é recomendada para qualquer pessoa que use ou tenha usado essas substâncias, com foco na função do eixo gonadal, perfil lipídico e função hepática.