Riscos cardiovasculares do uso de esteroides anabolizantes
Dr. Gilberto Nering Jr. — CRM/SP 160822 · Médico do Esporte RQE 142486
O uso de esteroides anabolizantes androgênicos causa dano cardiovascular progressivo e silencioso. Os eventos clínicos graves — infarto, insuficiência cardíaca e morte súbita — aparecem anos ou décadas depois do início do uso, quando o usuário muitas vezes já não associa os sintomas à substância.
O que a ciência mostra
Um estudo publicado no Circulation em 2025 acompanhou 1.189 usuários de anabolizantes por 11 anos e comparou com 59.450 pessoas da mesma idade e sexo que não usaram. Os resultados:
- Risco de cardiomiopatia: 9 vezes maior
- Risco de infarto do miocárdio: 3 vezes maior
- Risco de insuficiência cardíaca: 3,6 vezes maior
- Risco de arritmias cardíacas: 2,3 vezes maior
- Risco de tromboembolismo venoso: 2,4 vezes maior
A idade média dos usuários no estudo era 27 anos.
Quais são os mecanismos
Cardiomiopatia e fibrose
Os esteroides ativam receptores no músculo cardíaco e desencadeiam inflamação crônica que substitui tecido muscular por colágeno. O coração fica rígido, perde a capacidade de relaxar entre os batimentos e, progressivamente, passa a não bombear sangue de forma eficiente. Essa fibrose não regride com a suspensão do uso.
Dislipidemia aterogênica
O stanozolol oral reduz o HDL em 50 a 70% em três semanas. A testosterona injetável reduz em 20 a 30%. Com HDL baixo e LDL elevado, a aterosclerose progride de forma acelerada, produzindo placas coronarianas prematuras em homens de 25 a 35 anos sem outros fatores de risco.
Eritrocitose e trombose
Os anabolizantes estimulam a produção de glóbulos vermelhos, aumentando a viscosidade do sangue. Combinado com a aterosclerose e o estado pró-coagulante gerado pelas substâncias, esse mecanismo explica infartos, AVCs e tromboses pulmonares em adultos jovens.
Arritmias
O remodelamento cardíaco predispõe à fibrilação atrial e a arritmias ventriculares graves, incluindo morte súbita. O intervalo QTc, um marcador de risco arritmogênico mensurável no eletrocardiograma, aparece prolongado em repouso em usuários mesmo sem sintomas.
O que acontece quando se para
A disfunção diastólica, o espessamento das paredes e as alterações elétricas não desaparecem com a suspensão do uso. O dano estrutural é parcialmente irreversível. Ex-usuários mantêm alterações ecocardiográficas por anos após a cessação. O risco cardiovascular diminui com o tempo, mas não retorna ao nível de quem nunca usou.
Conclusão
Do ponto de vista cardiológico, não existe dose de esteroide anabolizante que seja cardiovascularmente segura. Os efeitos são dose-acumulativos e tempo-dependentes: quanto mais se usa e por mais tempo, maior o dano. Qualquer pessoa que use ou tenha usado anabolizantes deve realizar avaliação cardiológica completa, incluindo ecocardiograma Doppler com Strain, eletrocardiograma com medida de QTc e perfil lipídico detalhado.