O que está dentro do frasco que você comprou
Dr. Gilberto Nering Jr. — CRM/SP 160822 · Médico do Esporte RQE 142486
Boa parte do debate sobre anabolizantes se concentra nos efeitos adversos da substância declarada no rótulo. O que se discute menos é que, no Brasil, uma parcela significativa dos produtos que circulam no mercado clandestino não contém o que está escrito na embalagem, ou contém substâncias que o usuário não sabe que está injetando.
O que os laudos periciais mostram
O Relatório FARMONITOR 2024, produzido pelo Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal, analisou 168 amostras de anabolizantes apreendidos em território nacional. Entre elas, 31,7% eram falsificadas. Dos adulterados, 45,9% não tinham as substâncias declaradas no rótulo e 28,3% continham apenas compostos não declarados.
Na prática: quase um terço dos produtos apreendidos era completamente falso. Entre os adulterados, a maioria não tinha o que prometia. O usuário pagou por testosterona, nandrolona ou boldenona e recebeu outra coisa, ou nenhum princípio ativo.
O mercado clandestino brasileiro é abastecido principalmente pelo Paraguai. Produtos que entram por essa via não passam por controle de qualidade, não têm rastreabilidade de origem e são manipulados sem supervisão técnica ou sanitária.
O problema não para no mercado ilegal
Suplementos vendidos legalmente para desempenho físico também já foram identificados com substâncias não declaradas no rótulo: efedrina, cafeína em doses não informadas, clenbuterol, sibutramina e esteroides anabolizantes. A lógica é comercial: produtos sem respaldo científico adicionam ativos para que o consumidor perceba resultado, associe ao produto e volte a comprar. O que sustenta a venda não é a fórmula declarada.
Riscos que o usuário não está calculando
Quando o produto não contém o que o rótulo informa, a dose administrada é desconhecida. Quem ajusta o ciclo com base na embalagem pode estar injetando concentrações muito maiores ou menores do que acredita.
Compostos não declarados adicionam riscos que o usuário não estava considerando. Clenbuterol causa taquicardia, arritmias e hipocalemia. Sibutramina eleva pressão arterial e frequência cardíaca. Efedrina em doses altas tem risco de síndrome coronariana aguda. Nenhum desses efeitos é previsível para quem acredita estar usando apenas o que está no rótulo.
Produtos manipulados sem controle sanitário também estão sujeitos à contaminação bacteriana. Abscessos, celulites e septicemia por injeção de produto contaminado são complicações documentadas no contexto do mercado clandestino.
Quem usa múltiplos compostos ao mesmo tempo, o que é comum, não consegue avaliar interações quando não sabe o que cada frasco contém de fato.
Literatura científica
Uma análise publicada no Journal of Substance Abuse (DOI: 10.3109/10826084.2014.903750) documentou que adulteração e falsificação de produtos para musculação são fenômeno recorrente em diferentes países, com padrão consistente: concentrações diferentes das declaradas, presença de compostos não listados e ausência total de princípio ativo em falsificados. O risco não se limita ao Brasil.
Conclusão
O risco do mercado clandestino vai além dos efeitos adversos das substâncias em si. Inclui a impossibilidade de saber o que está sendo administrado, em que dose, e o que mais acompanha o produto. O usuário que faz esse cálculo costuma considerar os riscos do composto que acredita estar usando. Raramente considera que pode não estar usando esse composto.
Não se coloque nesse risco.