Riscos do uso de anabolizantes, peptídeos e SARMs para a saúde do atleta
Dr. Gilberto Nering Jr. — CRM/SP 160822 · Médico do Esporte RQE 142486
O uso de esteroides anabolizantes, peptídeos hormonais e moduladores seletivos de receptor androgênico (SARMs) produz ganhos reais de força e massa muscular. Também produz uma série de consequências orgânicas documentadas que comprometem a saúde a curto, médio e longo prazo. Conhecer esses riscos é parte do cuidado com o próprio corpo.
Esteroides anabolizantes
Sistema hormonal
Os anabolizantes suprimem o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas, que é o sistema responsável pela produção natural de testosterona. Enquanto o usuário está em ciclo, os testículos param de produzir. Com o uso prolongado, as células produtoras de testosterona nos testículos entram em processo de morte celular. Até 85% dos usuários de longo prazo desenvolvem hipogonadismo após cessar o uso. Em parte deles, isso é permanente, exigindo reposição hormonal pelo resto da vida.
Tendões e lesões
O músculo esquelético cresce mais rápido do que o tendão consegue se adaptar, porque os tendões têm muito menos receptores androgênicos do que o tecido muscular. O resultado é um desequilíbrio que aumenta significativamente o risco de rotura tendinosa, especialmente do tendão quadricipital, do patelar e do tendão de Aquiles.
Fechamento epifisário
Em adolescentes e jovens com crescimento ósseo ainda em curso, os anabolizantes aceleram o fechamento das epífises. A consequência é redução permanente da estatura final.
Saúde mental
Durante o ciclo, os andrógenos em doses suprafisiológicas alteram o sistema dopaminérgico e podem causar hipomania, irritabilidade e comportamento agressivo. Após o ciclo, com o eixo hormonal suprimido e a testosterona natural ainda não recuperada, a depressão ocorre em 80 a 90% dos casos. O risco de suicídio em ex-usuários é 3,5 vezes maior do que em não usuários. Cerca de 30% dos usuários de longo prazo preenchem critérios diagnósticos para dependência química.
Outros efeitos frequentes
Atrofia testicular, azoospermia e infertilidade (reversível ou não dependendo da duração do uso), acne nodulística grave, alopecia androgênica e, em mulheres, virilização com alterações parcialmente ou totalmente irreversíveis.
Peptídeos hormonais
Peptídeos como ipamorelin, CJC-1295, sermorelin, BPC-157 e análogos de GH são cada vez mais utilizados em academias sob a alegação de que estimulam a recuperação e a composição corporal de forma mais "natural". A evidência clínica para uso esportivo é praticamente inexistente.
Os riscos documentados incluem resistência à insulina via elevação crônica de GH, organomegalia com uso prolongado e, no caso do BPC-157, estimulação de VEGF com potencial de favorecer neovascularização tumoral em indivíduos com neoplasias ocultas.
O CJC-1295, um dos mais populares, teve seu ensaio clínico interrompido após a morte de um participante. Efeitos adversos foram relatados em 94% dos participantes do estudo.
SARMs
Os SARMs são apresentados como uma alternativa mais segura aos esteroides porque prometem agir seletivamente no músculo e no osso, sem afetar o eixo hormonal ou o fígado. As evidências clínicas não confirmam essa promessa.
Uma revisão sistemática de 2024 com nove ensaios clínicos e 970 participantes mostrou que todos os SARMs estudados suprimiram LH, FSH, testosterona e SHBG, e reduziram HDL. A supressão hormonal e o risco cardiovascular existem, ainda que em menor grau do que com os esteroides clássicos.
Casos de lesão hepática grave por SARMs foram documentados, com necessidade de internação em 60% dos casos e um óbito registrado. O mercado cinza agrava esse problema: análises de produtos vendidos livremente mostraram que apenas 52% continham o SARM declarado no rótulo. Quase 40% continham esteroides não declarados, frequentemente stanozolol.
Os estudos clínicos existentes foram realizados em populações de idosos com doenças crônicas, com duração média de 80 dias. Não há dados de segurança para uso em adultos jovens saudáveis em ciclos de 8 a 16 semanas.
Conclusão
Do ponto de vista da medicina do esporte, o uso dessas substâncias sem indicação clínica comprovada impõe riscos orgânicos reais e documentados que frequentemente superam os benefícios obtidos. A maioria dos efeitos adversos graves é dose-cumulativa e demora anos para se manifestar clinicamente. Quem usa, quem já usou ou quem considera usar deve buscar avaliação médica para conhecer seu estado de saúde atual e entender os riscos específicos para o seu caso.